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SEUI JEUHNG MOU

A Dança do Elefante Auspicioso de Choi Village

蔡厝圍村瑞象舞 Choi Chheu Wai Chyun Seui Jeuhng Mou

Entre as diversas manifestações culturais tradicionais preservadas na região de 海陸豐 Hoi Luk Fung (Hailufeng), no leste de Guangdong, uma das mais raras e interessantes é a 瑞象舞 Seui Jeuhng Mou, a Dança do Elefante Auspicioso. Embora manifestações como a 舞獅 Mou Si, Dança do Leão, a 舞龍 Mou Lung, Dança do Dragão, e a 舞麒麟 Mou Kei Lun, Dança do Qilin, sejam muito mais conhecidas dentro e fora da China, a tradição do elefante sobreviveu em um número relativamente pequeno de comunidades de Haifeng. Entre essas comunidades encontra-se 蔡厝圍村 Choi Chheu Wai Chyun, Cai Cuowei Village, localizada em 可塘 Ho Tong (Ketang), no condado de 海豐 Hoi Fung (Haifeng).

O próprio nome da tradição ajuda a compreender seu significado. 瑞象 Seui Jeuhng pode ser traduzido como “Elefante Auspicioso”. O caractere 象 Jeuhng significa elefante, enquanto 瑞 Seui possui o sentido de algo auspicioso, um sinal favorável, um bom presságio ou uma manifestação associada à boa fortuna. Portanto, o elefante dessa tradição não deve ser entendido simplesmente como uma imitação teatral do animal. Ele representa simbolicamente prosperidade, paz, abundância e boa sorte. Uma expressão tradicional associada ao costume é 舞瑞象,慶豐年 Mou Seui Jeuhng, Hing Fung Nin, que pode ser compreendida como “Dançar o Elefante Auspicioso para celebrar um ano de fartura”. A frase revela que a apresentação estava profundamente relacionada à vida comunitária e à esperança de prosperidade para a população local.

A origem cultural dessa tradição está ligada à antiga presença de elefantes no sul da China. A tradição de Hailufeng relaciona a dança à história da região de 嶺南 Ling Naam (Lingnan), território cultural que compreende principalmente as atuais províncias de Guangdong e Guangxi. Elefantes habitaram o sul da China em períodos antigos, e a memória cultural regional relacionou esses animais tanto ao trabalho quanto a diferentes formas de representação e celebração. Com o passar do tempo, os elefantes desapareceram de Guangdong, mas sua imagem permaneceu no imaginário das comunidades. Dessa forma, o animal deixou de existir fisicamente naquela paisagem, mas continuou presente simbolicamente através das tradições populares. O 象 Jeuhng, o elefante, transformou-se culturalmente no 瑞象 Seui Jeuhng, o Elefante Auspicioso.

A simbologia do elefante também adquiriu significados relacionados à estabilidade, paz e prosperidade dentro da cultura chinesa. Assim, mesmo depois do desaparecimento dos elefantes de Guangdong, comunidades do sul continuaram recriando sua presença através da dança e de apresentações cerimoniais. Essa continuidade ajuda a explicar como a memória de um animal que desapareceu da região há muito tempo conseguiu permanecer viva na cultura de Hailufeng.

Existe também uma fascinante tradição oral relacionada à origem de uma das linhagens da Dança do Elefante de Haifeng. É importante, entretanto, não confundir essa narrativa com a história específica de 蔡厝圍 Choi Chheu Wai. A lenda está associada principalmente a 笏口村 Huk Hau Chyun (Hukou Village) e ao mestre 陳雪隆 Chan Syut Lung (Chen Xuelong), conhecido pelo apelido de 紅蝦 Hung Haa, que teria estabelecido uma 瑞象班 Seui Jeuhng Baan, uma trupe ou grupo dedicado ao Elefante Auspicioso, durante o período de transição entre o final da dinastia Qing e o início da República da China.

Segundo essa tradição oral, Chen Xuelong teve um sonho no qual viu uma criança cuidando de animais em uma região montanhosa. Subitamente, uma enorme criatura branca surgiu da floresta. A criança, assustada, fugiu, mas quando um homem idoso se aproximou para investigar, percebeu que a misteriosa criatura era na realidade um 白象 Baak Jeuhng, um Elefante Branco. Apesar de seu tamanho e força impressionantes, o animal não demonstrava agressividade. Pelo contrário, apresentava uma combinação de dignidade, confiança, inteligência e gentileza. O homem então reconheceu aquele animal como um 神象 San Jeuhng, um “Elefante Divino” ou “Elefante Sagrado”. Quando pediu que a criança pudesse montar sobre o animal, o elefante abaixou o corpo e utilizou sua tromba para colocar a criança sobre suas costas.

Ao despertar, segundo a lenda, Chen Xuelong ainda conservava vividamente em sua memória os movimentos e a personalidade daquele elefante. A combinação entre enorme poder físico e comportamento pacífico teria servido de inspiração para a personalidade expressada posteriormente na Dança do Elefante Auspicioso. O 瑞象 Seui Jeuhng, portanto, não deveria simplesmente parecer forte. Sua força precisava estar acompanhada de equilíbrio, dignidade, serenidade e benevolência.

Entretanto, existe uma distinção histórica fundamental. Até o momento, as fontes disponíveis não demonstram que 蔡清玩 Choi Cing Wun (Cai Qingwan) tenha contado essa mesma história ou utilizado o sonho de Chen Xuelong como narrativa de origem de sua própria tradição. A lenda do Elefante Branco deve ser associada à tradição de Hukou, enquanto em Cai Cuowei encontramos evidência de uma 瑞象班 Seui Jeuhng Baan organizada por Cai Qingwan dentro da tradição mais ampla do Elefante Auspicioso de Haifeng. Essa separação é importante para evitar transformar uma tradição oral de uma aldeia em uma suposta história de origem de outra.

É justamente aqui que a história se torna particularmente interessante para o estudo de 蔡厝圍村 Choi Chheu Wai Chyun. Uma fonte dedicada à cultura de Hailufeng registra especificamente: 可塘镇蔡厝围村有蔡清玩组织的瑞象班, ou seja, “na aldeia de Cai Cuowei, em Ketang, havia uma trupe de Elefante Auspicioso organizada por Cai Qingwan”. Essa pequena informação possui enorme importância histórica, porque coloca 蔡清玩 Choi Cing Wun não apenas dentro do ambiente marcial de Cai Cuowei, mas também como participante ativo da cultura comunitária e das manifestações tradicionais da aldeia.

Cai Qingwan é especialmente conhecido dentro da pesquisa sobre a tradição marcial local associada ao 貓形拳 Maau Ying Kuen, o Punho ou Boxe da Forma do Gato. Entretanto, o registro da 瑞象班 Seui Jeuhng Baan revela uma dimensão adicional de sua atuação. Ele não estava envolvido apenas com a prática de boxe tradicional. Também participou da organização de uma manifestação cultural coletiva da própria aldeia. O registro disponível identifica explicitamente Cai Qingwan como organizador dessa trupe, embora as fontes atualmente disponíveis não forneçam uma lista completa dos integrantes que participavam das apresentações.

Esse detalhe é importante para compreender a maneira como as artes marciais funcionavam dentro das comunidades tradicionais do sul da China. Atualmente é comum separar Kung Fu, dança tradicional, música, religião popular e festividades em categorias diferentes. Dentro de uma aldeia tradicional, porém, essas atividades podiam fazer parte do mesmo universo social. Praticantes de artes marciais podiam participar de danças de animais, tocar instrumentos, proteger procissões, organizar festividades e participar das cerimônias dos templos e dos clãs. Dessa maneira, a participação de Cai Qingwan na 瑞象班 não deve ser vista necessariamente como uma atividade completamente separada de sua vida marcial. Ela fazia parte de uma cultura comunitária muito mais ampla.

A própria tradição do Elefante de Haifeng é descrita através da combinação de 武、舞、樂 Mou, Mou, Ngok, isto é, “arte marcial, dança e música”. O primeiro 武 Mou refere-se ao aspecto marcial, enquanto 舞 Mou significa dança, e 樂 Ngok refere-se à música. Essa combinação é especialmente relevante para compreender por que mestres e praticantes de Kung Fu podiam estar diretamente envolvidos nessas manifestações. Assim como ocorria com apresentações de leão, Qilin e outros animais, a performance não dependia somente de habilidade teatral. Exigia coordenação física, trabalho de pernas, resistência, controle corporal, ritmo e conhecimento das convenções cerimoniais.

A movimentação do 瑞象 Seui Jeuhng possui características próprias e não deve ser confundida com a Dança do Leão. O elefante é apresentado como um animal muito mais pesado, estável e deliberado. Entre as qualidades tradicionalmente representadas estão 威嚴 Wai Yim, majestade e dignidade; 穩重 Wan Chung, estabilidade e compostura; 自信 Ji Seun, confiança; 憨厚 Ham Hau, uma personalidade simples, honesta e de bom coração; e 善良 Sin Leung, bondade ou benevolência. Essas características precisam ser transmitidas através dos movimentos dos praticantes que dão vida ao elefante.

A sequência tradicional inclui momentos em que o elefante entra e apresenta seus respeitos, procura alimento nas quatro direções, alimenta-se, descansa depois de comer, retorna satisfeito e finalmente realiza seus cumprimentos de encerramento. Durante a apresentação, os praticantes manipulam a tromba, movimentam as orelhas, batem ou pisam fortemente com os pés e elevam a cabeça do animal. Os movimentos são intencionalmente mais lentos do que aqueles normalmente encontrados na Dança do Leão, justamente porque os artistas precisam transmitir ao público a sensação de peso, estabilidade e personalidade de um verdadeiro elefante.

A tradição de Haifeng também apresenta algumas relações cerimoniais com o 白額青面獅 Baak Ngaak Ching Min Si, o “Leão de Testa Branca e Face Verde”. Determinados elementos da sequência, etiqueta cerimonial e acompanhamento musical apresentam semelhanças com performances tradicionais de leão e tigre. A linguagem corporal, porém, permanece diferente. Enquanto o leão pode demonstrar explosividade, curiosidade, agilidade, brincadeira e agressividade, o elefante precisa transmitir massa, estabilidade e força controlada. O objetivo dos praticantes não é simplesmente carregar uma fantasia, mas criar a impressão de que o público está observando um animal vivo, dotado de personalidade própria.

A construção tradicional do elefante também demonstra a habilidade artesanal envolvida na tradição. A cabeça era produzida principalmente utilizando 竹篾 Juk Mit, tiras finas de bambu, e 紙 Ji, papel. As tiras de bambu eram amarradas para formar a estrutura da cabeça e depois cobertas com papel. A tromba, os olhos, as orelhas e a boca eram moldados sobre essa estrutura, e fibras vegetais também podiam ser utilizadas em determinadas partes. Depois da secagem, o elefante era tradicionalmente pintado de branco e recebia uma camada protetora. A aparência branca possui uma interessante correspondência simbólica com a imagem tradicional do 白象 Baak Jeuhng, o Elefante Branco, embora isso não seja suficiente, por si só, para afirmar que todos os elefantes brancos de Haifeng derivam diretamente da lenda de Chen Xuelong.

Quando tentamos identificar exatamente quem praticava a Dança do Elefante dentro de Cai Cuowei, a documentação disponível se torna mais limitada. O registro identifica 蔡清玩 Choi Cing Wun como responsável pela organização da 瑞象班 Seui Jeuhng Baan da aldeia, mas não apresenta uma relação completa dos artistas, músicos ou demais participantes. Por esse motivo, seria incorreto afirmar automaticamente que os discípulos conhecidos de Cai Qingwan no 貓形拳 Maau Ying Kuen também eram integrantes da Dança do Elefante. Essa possibilidade é historicamente interessante, mas precisa ser confirmada por documentação ou tradição oral da própria comunidade.

O que podemos afirmar com segurança é que 蔡清玩 Choi Cing Wun organizou uma 瑞象班 Seui Jeuhng Baan em 蔡厝圍村 Choi Chheu Wai Chyun, localizada em Ketang, Haifeng. A existência dessa organização coloca Cai Qingwan em uma posição particularmente interessante dentro da história cultural da aldeia. Ele aparece relacionado tanto ao ambiente das artes marciais quanto à preservação de uma manifestação tradicional coletiva. Isso abre uma importante linha de investigação sobre possíveis descendentes dos antigos participantes da trupe, os músicos que acompanhavam as apresentações, os locais onde o elefante era guardado, as festividades nas quais se apresentava e a possível participação de membros das famílias marciais da aldeia.

Cai Cuowei, portanto, não deve ser estudada apenas como uma aldeia onde se praticava Kung Fu. Sua cultura marcial estava inserida em uma rede muito mais ampla de costumes comunitários, tradições familiares, festivais, apresentações de animais e cerimônias populares. Nesse ambiente, 武 Mou, a prática marcial, e 舞 Mou, a dança cerimonial, podiam coexistir ao lado da música, das festividades e da identidade coletiva da aldeia. A organização de uma trupe de Elefante Auspicioso por Cai Qingwan torna-se muito mais compreensível quando observada dentro desse contexto.

O 瑞象 Seui Jeuhng de Cai Cuowei merece, portanto, ser lembrado juntamente com as tradições marciais da aldeia. O elefante simbolizava força, mas não uma força descontrolada. Representava poder acompanhado de estabilidade e compostura. Sua personalidade ideal era majestosa sem ser ameaçadora, confiante sem ser agressiva e poderosa sem perder a gentileza. Essa combinação encontra interessantes paralelos com valores tradicionalmente associados à cultura marcial chinesa.

Para a história de 蔡清玩 Choi Cing Wun, a referência à sua 瑞象班 Seui Jeuhng Baan revela um personagem mais complexo do que simplesmente um praticante ou transmissor de 貓形拳 Maau Ying Kuen. A documentação o coloca dentro da cultura tradicional de 蔡厝圍 Choi Chheu Wai, participando da preservação de uma das manifestações populares mais raras de Hailufeng. A história do Elefante Auspicioso, portanto, também faz parte da história cultural de Choi Village. Ela representa um mundo no qual Kung Fu, música, dança, ritual, festividades e identidade comunitária estavam profundamente interligados, permitindo que a memória de um animal desaparecido de Guangdong continuasse simbolicamente caminhando pelas aldeias de Haifeng através do majestoso 瑞象 Seui Jeuhng, o Elefante Auspicioso.

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